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Obituário dos ‘cancelados’ – 01/03/2020 – Antonio Prata

O mundo muda rápido e cabe ao jornalismo se adaptar. Com o intuito de ajudar a Folha em sua caminhada rumo ao amanhã, gostaria de propor aqui uma nova seção: uma coluna, nos moldes do obituário, 

com os “cancelados” do dia.

Seria de grande utilidade para desatentos como eu, que não estão antenados às sentenças sumárias proferidas diuturnamente pelos tribunais da internet. Já me aconteceu várias vezes de estar num jantar, citar um artista e sentir o climão.

Então alguém me cochicha: “Você não viu? Acharam um vídeo dele contando uma piada de papagaio numa entrevista de 1995. Cara, desrespeitava o papagaio, punha a ave numa posição humilhante; 

ornitofobia nojenta!”.

A coluna seria dupla: a dos cancelados pela direita e a dos cancelados pela esquerda. Na da direita, por exemplo: “Joel Pinheiro da Fonseca nasceu em Londres, em 1985. Formado em economia e filosofia, trouxe esperança de renovação para o conservadorismo brasileiro com seus artigos, vídeos e participações na rádio Jovem Pan.

Quando, porém, Joel passou a fazer um quadro fixo ao lado do comunista globalista maconhista Leonardo Sakamoto, no Canal MyNews, foi imediatamente ‘cancelado’ pela direita. Uma trolagem de sétimo dia será dedicada a ele por 15 mil robôs, mais disparos massivos de WhatsApp, na próxima quinta, às 11:00. Joel deixa um pai, uma franja e uma pinta”.

Ao lado, o “cancelamento” do Leonardo Sakamoto: “Há anos dedicado a pautas políticas e com forte engajamento social, Leo, como era conhecido pelos amigos, foi ‘cancelado’ após participar de um programa ao lado do fascista bolsominion homem branco hétero cis Joel Pinheiro da Fonseca.

Um ato de esculacho coletivo está marcado para amanhã, diante da FFLCH, onde um boneco de Sakamoto com cartola do Tio Sam será incendiado ao som da bateria de maracatu da Letras —bacharelado em grego”. 

A seção também poderia ter, nos moldes da coluna do Ronaldo Lemos, um “Já era”, “Já é”, “Já vem”, informando que crimes expiraram, quais os vigentes e uma aposta dos que virão.

“Já era: fantasia de índio no carnaval (Raoni liberou)”. “Já é: falar “índio”. O termo correto agora é indígena”.” “Já vem: dar nomes para filhos. Eles que devem escolhê-los quando forem grandes. Ou não escolher. Afinal, dizer ao outro que me chamo Antonio é impor a ele a minha verdade, quando do ponto de vista dele, tão legítimo quanto o meu, posso ter muito mais cara de Adalberto, Sheylla ou Siegfrid Von-Tsé-Tung”. 

A coluna terá um prazo para acabar, pois creio que em uma década não haverá mais um único terráqueo que não tenha sido “cancelado”. Talvez aí voltemos a nos dar conta do óbvio: o ser humano é complexo, tem virtudes e defeitos, às vezes tropeça, às vezes estende a mão —às vezes faz as duas coisas ao mesmo tempo. 

Como disse Obama, no ano passado: “Essa ideia de pureza, de jamais transigir (…), vocês deveriam superar isso, rápido! O mundo é confuso. Há ambiguidades. Pessoas que fazem coisas muito boas têm falhas. Pessoas com quem você está lutando podem amar os filhos e ter algumas semelhanças com você.

E um perigo que eu vejo nos jovens (…) é essa percepção, às vezes, de que a forma de promover a mudança é ser o mais crítico possível com os outros, e isso é suficiente.

Se eu tuitar ou fizer uma # sobre como você fez algo errado ou usou o verbo errado, posso relaxar e me sentir muito bem comigo mesmo. (…) Quer saber? Isso não é ativismo. Isso não vai trazer a mudança. Se tudo o que você faz é apedrejar, você provavelmente não vai muito longe”. 

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