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números dos óbitos ressaltam a desigualdade no Rio de Janeiro

Até sábado, dia 27, haviam morrido em Campo Grande 320 pessoas. No Leblon foram 63. Não por eventualidade, mais da metade dos óbitos de Campo Grande era de pessoas negras ou pardas, precisamente 172. No Leblon foram 9 negros ou pardo.

A discrepância nas taxas de mortalidade da cidade pode ser ainda maior quando se consideram as regiões de favela. Na Rocinha, com rende per capita de R$ 408, ela chega a 21,85%. Ou seja, para cada grupo de 100 moradores infectados, tapume de 22 morrem. Já na vizinha São Conrado, a taxa cai para 4,14%. De cada 100, 4 morrem.

Alguns metros de intervalo podem simbolizar a diferença entre a vida e a morte. O problema é que, na verdade, não são metros, são léguas de intervalo em itens fundamentais uma vez que renda, chegada à saúde de qualidade, transporte digno, ensino, habitação…

Um passeio pelo Quadro Rio COVID-19, da prefeitura do Rio, comprova muito a tese das pesquisadoras. A taxa de mortandade na Maré, por exemplo, chega a 23,96%. Em Paciência, bairro com uma renda per capita de R$ 428, segundo a FGV, é de 21,86%. Na Cidade de Deus é de 19,5% e no Multíplice do Germânico chega a impressionantes 45%. É verdade que muitos dos registros de casos e mortes na cidade não são feitos exatamente nos bairros correspondentes, mormente quando se trata de favelas e comunidades pobres, mas estes são os dados oficiais.

Um estudo divulgado recentemente pelas pesquisadoras Luiza Nassif Pires, do Levy Economics Institute, Laura Roble, da USP, e Laura Lima Xavier, da Havard Medical School, mostra que a desigualdade no Brasil é tanta e tão antiga que chega a estar entranhada no corpo das vítimas. Segundo elas, as chances de um brasílio pobre, que tenha unicamente o ensino fundamental, ser infectado pelo coronavírus é muito maior do que a de um quidam que tenha feito o ensino médio ou um curso superior. A proporção de pessoas com um ou mais fatores de risco, as chamadas comorbidades, chega a 54% entre os que têm unicamente o ensino fundamental, contra 28% do ensino médio e 34% do superior. Entre os mais pobres, a presença de dois ou mais fatores de risco é três vezes maior do que entre aqueles que frequentaram o ensino médio. Os fatores de risco ou pré-condições incluem, entre outras, as doenças cardiovasculares, diabetes, doenças pulmonares crônicas, hipertensão e doenças renais.

Um passeio pelo Quadro Rio COVID-19, da prefeitura do Rio, comprova muito a tese das pesquisadoras. A taxa de mortandade na Maré, por exemplo, chega a 23,96%. Em Paciência, bairro com uma renda per capita de R$ 428, segundo a FGV, é de 21,86%. Na Cidade de Deus é de 19,5% e no Multíplice do Germânico chega a impressionantes 45%. É verdade que muitos dos registros de casos e mortes na cidade não são feitos exatamente nos bairros correspondentes, mormente quando se trata de favelas e comunidades pobres, mas estes são os dados oficiais.

Em março, no início da pandemia, em entrevista ao #Colabora, o médico sanitarista Valcler Rangel, da Fiocruz, já alertava para esse problema. Ele defendia que houvesse justiça nas medidas de prevenção e controle do coronavírus, tratando de forma dissemelhante as pessoas e os locais que são diferentes: “Muitas das medidas que estão sendo adotadas ou recomendadas, todas elas corretas, não são acessíveis a essas populações que vivem nas favelas do Rio ou de São Paulo, por exemplo. Limpar as mãos com álcool gel, usar lenço de papel, isolar os doentes em um dos cômodos das casas… Uma vez que fazer quarentena em casas que possuem unicamente um cômodo, com vários moradores vivendo ali e onde muitas vezes não há sequer um banheiro?”, perguntava o doutor Valcler.

Em países uma vez que os Estados Unidos e o Brasil, campeões de casos e mortes no mundo pela covid-19, é quase impossível não falar de desigualdade social e racismo. Por cá, segundo o IBGE, 75% dos mais pobres são negros. Nos EUA, embora 18% da população do país seja negra, 52% dos casos e 58% das mortes são de pacientes negros, segundo um relatório da amfAR, instauração para pesquisa da Aids, publicado em maio.

No Brasil, os dados do Ministério da Saúde só passaram a incluir os dados sobre cor no dia 11 de abril, graças à pressão da Coalizão Negra por Direitos, um grupo de 150 entidades. No tela da prefeitura do Rio quase 50% dos casos aparecem uma vez que raça ou cor ignorados.

No entanto, uma reportagem da Sucursal Pública revelou que há uma morte para cada três brasileiros negros hospitalizados por covid-19, enquanto entre brancos a proporção é de uma morte a cada 4,4 internações. Valcler Rangel, da Fiocruz, lembra que várias outras doenças virais ainda estão fortemente presentes no Brasil, mormente nas favelas, uma vez que a Dengue, a Chikungunya, a Zika e o próprio Sarampo. O que complica ainda mais a situação.

A Rocinha, localizada na Zona Sul do Rio, com mais de 100 milénio moradores, ainda é uma das campeãs em registros de tuberculose no Brasil. Segundo a OMS, são mais de 300 casos para cada 100 milénio habitantes, um índice 11 vezes mais cima do que a média pátrio. Um indicador a mais da desigualdade reinante e das nossas comorbidades sociais.

Agostinho Vieira é Editor Encarregado do Projeto #Colabora.

As opiniões expressas nesse item não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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