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“Na nossa casa Auschwitz estava sempre sentado à mesa”

Raramente os filhos lhe faziam perguntas sobre o campo de concentração, mas Eliazar “Eddy” de Wind falava muito sobre ele. Contava histórias — a sua história — e sempre em alturas em que não era esperado que olhasse para quem o ouvia. 

“Falava-me muito de Auschwitz, mas de uma forma muito particular, quando não tinha de olhar para mim. Falava, por exemplo, se ia a conduzir e eu estava sentado ao lado. Não adiantava fazer-lhe perguntas porque agia como se não as tivesse ouvido. Dizia o que queria dizer”, recorda Melcher de Wind, referindo-se com orgulho à forma como o pai lidou com as memórias e os fantasmas que nunca o abandonaram. 

Na casa onde Eddy de Wind e a sua segunda mulher, Sonja, criaram os três filhos, a experiência que este médico holandês vivera durante a Segunda Guerra não era coisa que se escondesse. Psiquiatra e psicanalista, o último judeu a formar-se em Medicina na Universidade de Leiden já em pleno conflito, Eddy de Wind (1916-1987) acreditava ser seu dever partilhar o que testemunhara.

“O meu pai dizia que, por mais terríveis que sejam as histórias sobre Auschwitz, as fantasias das crianças são piores. Falar sobre o campo, embora doloroso, era algo que tinha de fazer.”

Eddy começou por escrever sobre o que se passara e, só depois, foi capaz de falar. Última Paragem Auschwitz — Como sobrevivi ao horror 1943-1945 é o título do livro em que relata os dois anos passados no complexo de Auschwitz-Birkenau, a maior e mais eficaz máquina de extermínio nazi, libertado pelo Exército Vermelho a 27 de Janeiro de 1945, faz amanhã 75 anos.




Eliazar “Eddy” de Wind enquanto estudante, por volta de 1939 CORTESIA FAMÍLIA DE WIND

Instalado perto da cidade de Oswiecim, na Polónia ocupada, e composto por mais de 40 campos de trabalho e de morte, Auschwitz-Birkenau era uma peça essencial no genocídio orquestrado por Hitler e pela sua cúpula militar. Nele terão perdido a vida — executados nas câmaras de gás com o pesticida Zyklon B, a tiro ou à pancada, e devido à fome e à exaustão, a experiências médicas e a doenças várias, como o tifo ou a tuberculose — 1,1 milhões de pessoas, entre elas 960 mil judeus, 21 mil ciganos e 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos. 90% dos que ali entravam, no total cerca de 1,3 milhões, morria durante o primeiro ano, lembra Eddy de Wind neste livro que agora está a ser publicado um pouco por todo o mundo (está já editado em 100 países, em mais de 20 línguas, tendo saído em Portugal em Novembro, com a chancela da Planeta, numa tradução de Maria Leonor Raven). 

Sempre que se aproxima uma data redonda da Segunda Guerra Mundial as prateleiras das livrarias são inundadas de testemunhos de sobreviventes do Holocausto e de ficções que têm por cenário campos de concentração. O que torna este Última Paragem Auschwitz diferente? O facto de, ao que se sabe, ser o único livro integralmente escrito em Auschwitz, quando as tropas soviéticas chegaram ao campo e faltavam ainda meses para o fim da guerra.

Publicado pela primeira vez em Fevereiro de 1946 na Holanda e apenas em neerlandês, circulou pouco porque a editora faliu e, provavelmente, porque a Europa em reconstrução, tão optimista quanto possível depois de um conflito mundial que deixara um rasto brutal no território e nas pessoas, estava pouco disponível para os relatos que expunham os horrores da guerra, em particular os dos campos nazis. Chamavam a estes livros, lembra Melcher de Wind, “literatura de arame farpado”.

Eu com outro nome

Última Paragem Auschwitz começa por ser escrito na primeira pessoa, mas rapidamente Eddy de Wind se transforma em Hans van Dam, o prisioneiro 150822, em tudo semelhante a ele. Até ali, ambos eram jovens médicos judeus oriundos de famílias de comerciantes com uma vida confortável; ambos estavam habituados a fazer vela, a discutir política com os amigos e a dedicar boa parte do seu tempo de lazer à música, em particular ao jazz, tocando saxofone e clarinete; ambos esperavam, legitimamente, um futuro tranquilo, dedicado aos seus doentes e à investigação. Nenhum deles, o real e o que Eddy inventou porque lhe era demasiado doloroso escrever na primeira pessoa, estava perto de antecipar o que viria a acontecer-lhes. Como poderiam?

O livro — que viria a ter uma segunda edição em neerlandês em 1980 à qual Eddy acrescentou informação sobre o que acontecera depois da libertação de Auschwitz em 1945 (é com ela que termina o relato original) e que voltou a ter uma circulação muito limitada — só viria a ter o reconhecimento com que o autor sonhara agora, graças à família De Wind, que decidiu voltar a publicá-lo motivada pela exposição Auschwitz – Não há muito tempo. Não muito longe, que começou em Madrid em 2018 e desde então tem circulado pelo mundo, mostrando milhares de objectos originais deste complexo nazi.




Eddy de Wind pertencia a uma família de comerciantes e gostava de velejar nos lagos e canais de Haia. Aqui, no final dos anos 1930, era ainda estudante Cortesia: Família De Wind

“O livro conta histórias terríveis deste campo de morte a partir de dentro, pode dizer-se que de dentro da barriga da besta. Leva-nos para o campo e é por vezes difícil de ler porque é muito directo, cru. Contudo, é também uma história de esperança. Também fala de amor, solidariedade e humanidade em Auschwitz e de como estas coisas deram às pessoas o poder de se manterem vivas no inferno”, diz Melcher, hoje “guardião” do legado do pai, um legado que para muitos sobreviventes e seus descendentes pode ser difícil de aceitar já que o então jovem médico não se coíbe de falar de circunstâncias, às vezes com exemplos aterradores, em que as vítimas podem revelar a sua inumanidade e os carrascos podem deixar transparecer que são, ou foram, humanos.

“Os jovens foram educados no espírito de sangue e solo, não conhecem outra coisa. São os mais velhos, como o Lagerarzt [médico do campo], que mostram possuir ainda alguns resquícios da educação anterior através de pequenos gestos. Tiveram outra educação e, por isso, podiam ter-se mantido humanos; por isso, têm mais culpa do que essa carneirada jovem nazi que nunca conheceu outra coisa.”

Contar a sua história através da personagem de Hans foi a forma que Eddy de Wind encontrou para se manter vivo, numa altura em que achava que toda a sua família, incluindo a mulher, Friedel, estava morta, diz Melcher. “O meu pai pensou em suicidar-se já depois da chegada do Exército Vermelho, uma reacção ao sentimento clássico a que hoje chamamos ‘culpa do sobrevivente’. Como poderia ele estar vivo se todos aqueles milhões de pessoas tinham sido assassinados? De certa maneira, sentia inveja dos que tinham morrido e não eram obrigados a suportar a dor que carregava naqueles dias depois da partida dos alemães do campo. Estar vivo parecia-lhe um castigo, sentia-se sozinho e deprimido, queria morrer.”

Foi aí que, lembrando as palavras de uma mulher seriamente ferida que tratara, descobriu um propósito: contar o que ali se passara para que ninguém duvidasse de que tinha acontecido e fazê-lo o quanto antes para que não houvesse no seu relato nada de construído. Com a formação médica que tinha, Eddy sabia que a memória rapidamente pode ser corrompida, atraiçoada, pelo que vem a seguir.

Chegara a Auschwitz aos 27 anos, em Setembro de 1943, e quando finalmente regressou à Holanda, em Julho de 1945, mentalmente, tinham passado muito mais do que dois anos. “Já não me recordo qual era o meu estado psicológico [quando regressei]. A reconstrução de acontecimentos passados há tanto tempo é uma tarefa arriscada”, admite num posfácio da edição de 80, em parte recuperado agora no que é escrito pela família para contar o resto da sua história. “Lembro-me de como, pouco depois dos russos terem entrado no campo, dançámos no portão à vez em cima de um grande retrato de Hitler (…). Uma coisa sentia de certeza: tenho de contar a toda a gente o que aqui aconteceu. Se anotar agora e todos ficarem a saber, isto nunca mais há-de acontecer.”

Pegou num caderno igual aos que os SS usavam para tomar notas sobre a vida no campo, incluindo os números de prisioneiros enviados para as câmaras de gás todos os dias, e começou a escrever, sentado aos pés da cama, precisamente no mesmo bloco onde ficara à chegada a Auschwitz.

Amor e desejo

Eddy de Wind entrou em Auschwitz já casado com Fridel, uma jovem enfermeira que conhecera em Westerbork, um campo de transição na Holanda para onde tinha ido como voluntário por acreditar que a vida da mãe, que para ali tinha sido levada, seria poupada se ele aceitasse trabalhar como médico. O Conselho Judaico, a instância que mediava as relações entre os ocupantes alemães e os judeus holandeses, garantira que os médicos não seriam deportados para Auschwitz. Uma ilusão.

“Ter alguém a quem amar, a quem desejar, em Auschwitz foi crucial para o meu pai porque fez com que ele não desistisse”, diz Melcher, acrescentando que Eddy nunca se referiu ao facto de ter sobrevivido como o resultado de uma resistência heróica ao que se passava à sua volta, mas sempre como um caso de pura sorte. São, aliás, frequentes no livro os episódios em que tudo podia ter corrido pelo pior.




O casamento de Friedel e Eddy em Westerbork, o campo de transição onde se conheceram (Maio de 1943). Quatro meses depois seriam ambos enviados para Auschwitz Cortesia família De Wind

A “sorte” — chamemos-lhe assim porque é assim que Eddy lhe chama — começou à chegada, quando o casal foi enviado para dois barracões contíguos em Auschwitz I, ao passo que a maioria das pessoas que viajara no mesmo transporte foi conduzida às câmaras de gás de Birkenau (Auschwitz II). Mas, enquanto Eddy foi chamado a trabalhar num dos blocos hospitalares, Friedel foi remetida ao N.º 10, um espaço onde uma equipa liderada pelo tristemente célebre Josef Mengele, o médico de campo que é considerado um dos maiores criminosos de guerra de sempre, submetia as mulheres a todo o tipo de experiências com vista a criar um método eficaz de esterilização que permitisse aos nazis eliminar, rápida e sistematicamente, todos os que consideravam não-arianos.

“Tão perto que ela estava, a uns trezentos metros no máximo, mas havia guardas à porta e, se o apanhassem, levava uma belíssima sova. (…) Foi assim que passou uma semana sob a tensão da inactividade, da espera, do pão e das pancadas, do aborrecimento e do desejo.”

Eddy só mais tarde viria a compreender quem era Mengele e a extensão do que se passara no Block 10. Friedel nunca recuperou.

“A Friedel era de ouro, mas o ouro puro é um metal mole. Fosse ela de aço e todo esse sofrimento não deixaria marcas com tanta facilidade. (…) As mulheres judias eram cobaias baratas. O seu sofrimento só lhes causava satisfação e, se morressem, pouco lhes importava.”

Ao longo de 200 páginas vemos o campo como Eddy aka Hans o viu, umas vezes trabalhando como médico/enfermeiro, outras como um prisioneiro comum, em tarefas de grande desgaste a que tinha sido obrigado depois de apanhado a passar bilhetes a Friedel por cima do arame farpado ou com ela à conversa a horas em que não era suposto estar no bloco de Mengele.

“O que vemos é a chama, a chama eterna da chaminé do crematório. Esse lume está aceso dia e noite, temos sempre a consciência de que há lá pessoas a ser queimadas. Pessoas como tu, com cérebro e coração que bombeia sangue — um fluido assombroso — através de uma rede infinita de veias, com vida até ao último tecido, até à mais ínfima célula. A criação maravilhosa de Deus.

Às vezes o tempo está húmido e o fumo cai sobre o campo. Depois há ainda o cheiro de carne a queimar, um cheiro a bife sem margarina suficiente na frigideira. É este o teu pequeno-almoço, porque já não tens mais pão. É quando não se aguenta mais. Estás cansado, doente, agoniado de ti mesmo, porque és um ser humano e o SS também é ‘humano’.”

Ao fim de dois anos em que os seus corpos e o seu espírito quase cederam, e quando os russos se começavam a aproximar de Auschwitz, no Outono de 1944, Eddy e Friedel foram separados. Ela integrou uma das chamadas Marchas da Morte — com as suas tropas forçadas a recuar e procurando apagar os vestígios do que ali se passara, os nazis obrigaram grupos de prisioneiros a caminhar em direcção ao interior da Alemanha, vindo a morrer aos milhares durante o trajecto — e ele escondeu-se numa pilha de roupa, refugiando-se mais tarde no sótão de uma casa na aldeia próxima de Rajsko com um grupo de republicanos espanhóis. Alfonso Colet, um dos resistentes, tornara-se seu amigo e convencera-o a fugir. Friedel tentara ficar, como Eddy lhe suplicara, mas não conseguiu.

Quando se tornou seguro voltar a Auschwitz, Eddy decidiu aceder ao pedido de uma major do Exército Vermelho e ficou para trás a cuidar dos milhares de pessoas que estavam demasiado doentes para regressarem a casa. Não havia medicamentos suficientes à disposição e muitos estavam já tão fracos que, de qualquer modo, seriam incapazes de resistir. Foi nesse contexto, acreditando que também Friedel teria já morrido a caminho da Alemanha, que pensou em suicidar-se, admitiria mais tarde aos filhos.

De pais para filhos

Depois de meses a tratar dos sobreviventes, Eddy seguiu com as tropas russas para a frente de batalha para cuidar dos feridos. Regressou à Holanda libertada em 1945, depois de ter escrito a partir da Ucrânia uma carta à Cruz Vermelha em que incluía uma mensagem para a mulher. Queria acreditar que Friedel estava ainda viva e não se enganou. O casal reuniu-se no fim da guerra e, depois de Eddy ter vendido o que restava do património da família, fixou-se numa casa nos arredores de Amesterdão, onde retomou a sua carreira já como psiquiatra e psicanalista, começando a tratar pessoas que, como ele, estavam traumatizadas pela experiência da guerra.

Eddy de Wind foi dos primeiros a falar sobre a “síndrome do campo de concentração”, numa obra que publica logo em 1949 e a que dá o título de Confronto com a Morte. É também pioneiro na teoria que defende que o trauma dos que a eles sobreviveram se transmite às gerações seguintes, revelando-se de múltiplas formas.

“Para mim o meu pai sempre foi um herói, não por ter sobrevivido, ‘pura sorte’ costumava dizer, mas porque decidiu começar a ajudar outras pessoas assim que o campo foi libertado, porque decidiu enfrentar o processo penoso de escrever a sua história e porque foi capaz de reconstruir a sua vida com a minha mãe”, diz Melcher, que só no final de 2019 visitou Auschwitz, algo que nunca tinha sido capaz de fazer. “Ser seu filho nem sempre foi fácil porque, embora generoso e amável, o meu pai era também um homem profundamente traumatizado, com frequência hospitalizado.”




Melcher de Wind: “Ter alguém a quem amar, a quem desejar, em Auschwitz foi crucial para o meu pai porque fez com que ele não desistisse”

Melcher acredita que, apesar de o ter mantido vivo, Última Paragem Auschwitz não encerrou no passado os seus fantasmas. “As feridas eram demasiado profundas. Ao especializar-se no tratamento de outros como ele, Eddy chegou à conclusão de que essas feridas jamais poderiam ser curadas.”

O que Eddy e Friedel tinham vivido no campo na Polónia ocupada acabaria por ditar o fim do seu casamento. Além de psicologicamente afectada, a sua primeira mulher, que contraíra tuberculose, tinha marcas físicas profundas. O casal, que nunca conseguiu ter filhos, acabaria por se separar 12 anos depois de regressar à Holanda. Sempre que olhavam um para o outro viam Auschwitz, diria o psiquiatra anos mais tarde. Não era fácil esquecer episódios ou relatos como este:

“No Outono de 1943, descobriram um complot de sabotagem em Maydanek, o campo de concentração perto de Lublin. As SS decidiram então exterminar os dezoito mil judeus num só dia. Abriram uma enorme vala rectangular. Num lado do rectângulo as pessoas despiam-se e dobravam a esquina para serem abatidas noutro lado. O barulho das metralhadoras e os gritos das vítimas eram abafados por cinco orquestras.”

Eddy de Wind casou, depois, com a mãe de Melcher, Sonja, que não era judia. O divórcio valeu-lhe duras críticas da comunidade judaica e, por isso, o médico evitava falar do seu primeiro casamento aos filhos.

No fim da vida — morreu em 1987, aos 71 anos, depois de ter criado uma fundação para reunir a investigação em torno da passagem do trauma dos sobreviventes à sua descendência — Eddy de Wind estava de volta a Auschwitz. Internado no hospital, onde ficou mais de um mês depois de ter sofrido um ataque cardíaco, “entrava em pânico e confundia as enfermeiras com homens das SS”, recorda o filho. “Se alguém morria na sua enfermaria, ficava completamente confuso e chorava de alívio porque em Auschwitz a morte de uma pessoa podia significar que lhe era permitido viver mais um dia. E, ao mesmo tempo, este sentimento fortalecia a sua ‘culpa de sobrevivente’.”

Uma farda, um manuscrito e um clarinete

O estigma do campo de concentração, pode ler-se num estudo da Faculdade de Medicina de Cracóvia, Polónia, está sem dúvida presente na segunda geração, nos filhos dos sobreviventes, podendo manifestar-se de diferentes formas, regra geral em distúrbios de personalidade, imaturidade emocional ou social, inadaptação ao meio circundante ou uma maior frequência de estados neuróticos. “O stress dos campos deixou na natureza humana traços tão dolorosos que não vai desaparecer com a morte da geração que esteve presa”, garante a equipa liderada pelo psiquiatra e professor universitário Zdzislaw Ryn.

Testemunhos de filhos de sobreviventes como os que surgem em Children of the Holocaust: Conversations with Sons and Daughters of Survivors (Helen Epstein, 1979) vêem-se hoje reforçados por estudos de genética, como o divulgado por uma equipa do prestigiado Mount Sinai Hospital de Nova Iorque, que em 2015 veio defender que os filhos de mulheres com stress pós-traumático têm três vezes mais probabilidade de sofrer do mesmo problema do que as outras crianças e quatro vezes mais de virem a ser afectados por ansiedade e depressão.




Capa do manuscrito que deu origem a Última Paragem Auschwitz — Como sobrevivi ao horror 1943-1945; Eddy aos 70 anos, em 1986 Jeroen van Ammelrooij

Este estudo, liderado pela psiquiatra e neurocientista Rachel Yehuda e publicado na revista médica Biological Psychiatry, partiu da análise dos genes de 32 judeus, homens e mulheres, que estiveram em campos de concentração, que se viram forçados a esconder-se durante a Segunda Guerra ou que foram torturados e assistiram a actos de tortura. Em seguida, a equipa examinou os seus filhos. “As alterações genéticas nos filhos só podem ser atribuídas à exposição dos pais ao Holocausto”, disse Yehuda ao diário britânico The Guardian.

Estes resultados que procuram começar a mostrar que o trauma não se transmite à geração seguinte apenas através de factores ambientais, sociais, são, ainda, alvo de aceso debate entre os especialistas. Melcher de Wind, no entanto, parece não ter dúvidas: “Auschwitz trouxe mais medo e sofrimento do que qualquer ser humano pode superar numa vida. Isso faz com que, infelizmente, o trauma não acabe nos sobreviventes. Os filhos são, com muita frequência, afectados pelas histórias dos pais”, reconhece. Os mesmos pais que se viram despersonalizados na chegada aos campos e que tiveram de aceitar que, na realidade, estavam mortos. “Os filhos dos sobreviventes nasceram e tiveram que crescer num ambiente onde a dor e o medo faziam parte da normalidade. Isso traumatizou a maioria de uma maneira ou de outra. Para os filhos dos sobreviventes era difícil, por isso, desenvolver uma personalidade própria. Posso dizer que precisei de muita força para superar esse trauma e para encontrar a minha própria voz.”

Uma farda do Exército Vermelho, um clarinete e o manuscrito de Última Paragem Auschwitz estão entre as poucas coisas que Eddy de Wind trouxe da guerra. Melcher leu o pequeno livro, escrito a lápis e em letra miudinha, quando tinha 18 anos e se preparava para começar a estudar História na universidade. Se lhe perguntam que memória guarda da primeira vez que ouviu falar do campo, diz apenas: “Não sei. O campo estava simplesmente lá. Como a minha mãe costumava dizer, na nossa casa Auschwitz estava sempre sentado à mesa da cozinha. E estava mesmo.”



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