Fatos Fatos famosos Fatos recentes

Combo de ‘Apocalypse Now’ traz intensidade perturbadora e a guerra dos bastidores – 30/06/2020 – Cinema

Quando Francis Ford Coppola bandeou-se para as Filipinas com a mulher, os três filhos (Sofia, a futura diretora de “Encontros e Desencontros”, tinha quatro anos) e um roteiro do qual final o desagradava, em 1976, as filmagens de “Apocalypse Now” estavam planejadas para porfiar 16 semanas.

Uma troca de protagonista (Harvey Keitel por Martin Sheen), um furacão, um ataque cardíaco (de Sheen), um colapso nervoso (de Coppola), um planeta que ameaçou não eclodir (Marlon Vagaroso) e dezenas de problemas diários depois, as filmagens consumiram 34 semanas (sem narrar dois meses de pausa).

Na estação, a prensa de Hollywood se encarregou, com trocadilhos em manchetes, de fazer o que hoje cabe aos memes das redes sociais. “Apocalypse When?” (apocalipse quando?) , perguntava uma delas. A resposta mais adequada teria sido “Now and Ever”, agora e sempre.​

Sim, porque a megalomaníaca e delirante façanha de Coppola na selva não termina nunca, uma vez que demonstra o pacote que o serviço de streaming Belas Artes à la Carte lança nesta quarta-feira, com “Apocalypse Now: Final Cut” e dois documentários sobre as filmagens.

A primeira versão de “Apocalypse Now” foi a imitação de trabalho (“work in progress”) que disputou a mostra competitiva do Festival de Cannes, em maio de 1979. Coppola recebeu a Palma de Ouro de melhor filme (dividida com “O Tambor”, de Volker Schlöndorff), prêmio que ele já havia obtido por “A Conversação” (1974).

As cópias que chegaram aos cinemas, em agosto daquele ano, compactaram as 230 horas de material filmado em 144 minutos. “Transitar por esse universo era uma vez que continuar lentamente por uma floresta densa”, conta um dos responsáveis pela proeza, o montador Walter Murch, no livro “Num Piscar de Olhos”.

Em maio de 2001, “Apocalyse Now Redux”, estreou no Festival de Cannes. Tinha 197 minutos e recuperava sequências inteiramente descartadas em 1979, uma vez que a passagem do capitão Willard (Sheen) pela herdade francesa protegida por milicianos — trecho de que Coppola não gostava.

A restauração do dedo dos negativos originais deu origem a “Apocalypse Now: Final Cut” (namoro final), lançado nos cinemas e em Blu-ray em agosto de 2019, com “exclusivamente” 183 minutos. É a versão que Coppola, portanto com 80 anos, quis estabelecer uma vez que a definitiva.

A fenda icônica ao som de “The End”, da margem The Doors, e o final que evoca as palavras do “primeiro sussurro de um vento que chega” (“o horror, o horror”), vindas do romance “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, e balbuciadas pelo coronel Kurtz (Vagaroso), continuam lá.

Entre essas duas sequências, o tempo estendido de “Final Cut” atribui intensidade ainda mais perturbadora à visão da Guerra do Vietnã uma vez que jornada à “zona obscura” (“twilight zone”, em referência também ao título original da série clássica de TV “Além da Imaginação”) dos EUA, segundo Coppola.

Os documentários levam o testemunha a outra guerra, a das filmagens, em que oficiais graduados — uma vez que o diretor de retrato Vittorio Storaro e o desenhista de produção Dean Tavoularis — e centenas de recrutas estavam sob o comando de um general megalomaníaco (Coppola) que reproduziu nas Filipinas o modus operandi imperalista americano no Vietnã.

Rodado pela mulher do diretor, Eleanor, o longa “Apocalipse de um Cineasta” (1991) oferece a perspectiva da ponte de comando. É um espetacular “making-of”, concebido para registrar um novo triunfo do mago de “O Poderoso Chefão”, mas que por muito pouco não se torna a crônica de um desvario truncado.

Já o curta “Dutch Angle: Fotografando Apocalypse Now” (2019), de Baris Azman, representa um complemento valioso ao restaurar a participação do holandês Chas Gerretesen uma vez que o fotógrafo de set. Observador cauteloso, sensível ao jogo hollywoodiano de egos e vaidades, ele faz um relato equivalente ao de um espião infiltrado nas tropas de Coppola, com indiscrições deliciosas, em privativo, sobre a presença breve, espaçosa e narcisista de Vagaroso no front das filmagens.

Manancial

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *