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Lume, última pingo sobre a Amazônia – 01/06/2020 – Marcelo Leite

Mesmo que o epicentro da epidemia de Covid-19 seja São Paulo, a Amazônia se encontra em situação pior. E o bicho vai pegar mal-parecido por lá com a aproximação da temporada de queimadas —poderá ser a última pingo para fazer colapsar de vez um sistema hospitalar já precário.

Os piores indicadores do coronavírus no Brasil estão no estado do Amazonas. São mais de 36 milénio casos confirmados e, na proporção por habitantes, bate São Paulo: mais de 900 doentes por centena milénio pessoas, contra uns 230 no líder do Sudeste.

Olhando para as mortes pelo vírus Sars-CoV-2, o quadro também é pavoroso. No AM há 499 por milhão de habitantes, contra 157 em SP (onde a epidemia começou pelo menos três semanas antes), segundo levantamento de Marcelo Soares.

Isso sem falar na subnotificação, que deve ser galopante na região Setentrião. Apesar dela, as mortes por milhão no Amazonas estão no nível do que se verificou nos países mais afetados, uma vez que Espanha, França e Suécia (respectivamente 580, 440 e 431 por milhão, de harmonia com a página do Our World in Data.

Para complicar as coisas, dois fatores –desmatamento e estiagem– concorrem para que a estação do queimada a iniciar-se nas próximas semanas seja das piores nos últimos anos. A fumaça piora a qualidade do ar nas cidades amazônicas e, mesmo sem Covid-19, enche os hospitais da região com síndromes respiratórias nos anos de muita queima.

O alerta aparece em nota técnica do Inpe (Instituto Vernáculo de Pesquisas Espaciais), de Luiz Aragão, Celso Silva Junior e Liana Anderson. Seu título, auto-explicativo, é “O Duelo do Brasil para Sofrear o Desmatamento e as Queimadas na Amazônia Durante a Pandemia por Covid-19 em 2020: Implicações Ambientais, Sociais e sua Governança”.

Em primeiro lugar aparece o desmatamento em subida. Até meados de maio, o Inpe indicava já terem sido destruídos 89% de tudo que se derrubou em 2018/19, quando houve aumento de 30% e a superfície devastada chegou a 9.762 km².

Faltam ainda dois meses mais secos, junho e julho, favoráveis ao namoro raso e às queimadas, para fechar a novidade zero solene (o “ano fiscal” do desmate vai de agosto a julho). Desmatadores, legais ou ilegais, aproveitam a secura para atear queimada à biomassa caída e enleirada, ou seja, reunida em fileiras.

Em segundo lugar, os autores chamam atenção para o vestimenta de as águas do oceano Atlântico apresentarem nestes primeiros meses de 2020 temperaturas supra de toda a média histórica. Esse tipo de anomalia costuma vir associado com estiagens acentuadas no sudoeste da Amazônia, uma vez que o estado do Acre.

O clima sedento favorece tanto a realização de novas queimadas quanto sua propagação fortuito ou propositado para matas adjacentes. Surgem os incêndios florestais, de controle dificultado pela material seca acumulada no solo em áreas degradadas, uma vez que aquelas em que ocorreu retirada clandestina e seletiva de madeira.

Projeções estimam que a superfície desmatada na Amazônia neste ano galgue pelo menos outros 30% e ultrapasse a marca de 12 milénio km². Mais fumaça e imundície invadirão as vilas e cidades amazônicas, sobrecarregando ambulatórios já lotados pelo coronavírus.

Em meio à dupla emergência anunciada, Brasília brinca de dar uma no cravo e outra na ferradura. O sinistro do Meio Envolvente, Ricardo Salles, afirmava antes das queimadas que pretendia usar a atenção monopolizada pelo coronavírus para passar a boiada da desregulamentação (leia-se: desmonte) de normas de preservação.

O encarregado de manietar Ibama e ICMBio será, porém, atropelado pelo queimada. Sentindo o calor, saiu-se há pouco com um esquizofrênico “Projecto Vernáculo para Controle do Desmatamento Proibido e Recuperação de Vegetação Nativa 2020-2023”.

À luz de seu prontuário e dos incêndios, parece uma piada de mau sabor. O projecto fajuto de Salles cita dados do Inpe (aqueles que o presidente Jair Bolsonaro acusou de serem falsificados) e labareda o terceiro setor (ONGs) para colaborar. Rá.

Melhor dizendo, não será Salles quem sairá chamuscado. Assim uma vez que no caso das mortes da Covid-19, os militares serão lambidos pelo queimada. Bolsonaro pôs o vice-presidente, general Hamilton Mourão, velha raposa da princípio paranoica da cobiça internacional sobre a Amazônia, para cuidar do galinheiro em chamas.

O projecto é coisa do vice. Foi feito para norueguês e germânico verem. Na semana passada, Mourão reuniu-se com embaixadores dessas nacionalidades para tentar ressuscitar o bilionário Fundo Amazônia despachado para uma cova rasa por Salles (retirado pelo vice da chefia do comitê orientador do fundo).

O general está preocupado com a imagem do país e com o vestimenta de Tereza Cristina (Cultivação), que antes do governo Bolsonaro era conhecida no Brasil uma vez que Musa do Veneno, já ser chamada no exterior de Mrs. Deforestation. Em sua operação globalizante de relações públicas, comanda operações militares teatrais na Amazônia com raros fiscais do Ibama, objeto do ódio presidencial.

São Paulo e outros estados do Sudeste e do Sul, mal ou muito, têm alguma estrutura para enfrentar a Covid-19. A Amazônia, posta de joelhos pelo coronavírus, corre o risco agora de sucumbir de vez aos incendiários do governo Bolsonaro.​

Manancial

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