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Em Porto Prazenteiro, jornal de moradores de rua ganha assinatura do dedo para driblar pandemia – 08/05/2020 – Cotidiano

“Fica em mansão! Que mansão?”, lê-se na edição mais recente do jornal Boca de Rua, a primeira com assinatura do dedo em 19 anos de história. A publicação, com circulação trimestral, é feita por moradores de rua de Porto Prazenteiro que se encarregam, das entrevistas, das fotografias e da redação dos textos.

“Eles costumam abordar aspectos em torno da vida da rua, uma vez que agressões físicas e psicológicas da sociedade, questões das mulheres e também coisas legais, uma vez que retratar uma comunidade ou família de rua”, explica a jornalista Rosina Duarte, uma das fundadoras do Boca de Rua e editora da publicação.

Depois da sentimento, cada um recebe uma quota semanal para venda. A comercialização em semáforos é uma das fontes de renda dos repórteres, que também costumam recolher material reciclável, velar carros e faxinar.

Diante da pandemia, porém, a dinâmica tradicional teve de furar caminho para uma escolha online.

Em razão da Covid-19, as janelas dos carros que antes se abriam nos semáforos para que motoristas comprassem o Boca, uma vez que é chamado o jornal, agora ficam fechadas. As reuniões, que eram semanais, passaram a ser quinzenais em uma terreiro, com o devido distanciamento entre os integrantes da equipe.

Sem mansão e muitas vezes até sem chuva e sabão, os repórteres de rua tiveram a teoria de lançar uma versão do dedo do jornal com assinatura, para que possam manter segmento de seu sustento e evitar que a as edições sejam suspensas.

“A sugestão de publicar online e vender a assinatura partiu deles. Colaboro com a divulgação, o formulário e o envio das edições para os assinantes”, explica Charlotte Dafol, colaboradora do Boca de Rua.

As assinaturas podem ser feitas a partir da página da publicação e custam R$ 20, mas é verosímil colaborar com quantias maiores. Porquê o jornal é do dedo, o réplica enviado por e-mail para qualquer localidade. Já são ao menos 400 assinantes e a verba é dividida e distribuída quinzenalmente a 30 moradores de rua.

O jornal tem pedestal da Filial Livre para a Informação, Cidadania e Instrução (Alice) e a sentimento, antes da pandemia, era custeada com ajuda do Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Sul (Sindipetro-RS).

“Povo da rua não tem onde fazer isolamento social, pois vive em barracas nas praças ou nas calçadas”, diz o texto, que acompanha fotografias que retratam cenas na capital gaúcha, uma vez que um varão dormindo no pavimento e uma tenda de lona.

Na edição do dedo, os moradores de rua entrevistaram a médica e professora de Saúde Coletiva da Universidade Federalista do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maria Gabriela Curubeto Godoy.

A entrevista foi feita durante a reunião periódica e levantou temas uma vez que aumento do preconceito, a falta de um lugar para a quarentena e a preocupação com a África, porque relataram que costumam ver notícias unicamente sobre a Europa.

“Um vírus é uma fitinha de material genético. No caso do coronavírus, ela é envolvida em uma capinha de gordura enxurro de “espículas” que formam uma grinalda. É por isso que o sabão, mas também tudo o que tira a gordura, consegue desmanchar ele”, explicou Godoy aos repórteres.

Há reportagens ainda sobre filas nos restaurantes populares, vagas em albergues e sobre negligência em atendimento médico. Um dos textos aborda a valimento do uso de máscaras.

“As máscaras evitam que as gotinhas de seiva saiam da boca da pessoa contaminada e também protegem quem não tem o vírus”, escreveram. Eles enumeram dificuldades para a população de rua aderir ao uso: preço, limpeza e descarte correto, por exemplo.

De conformidade com Duarte, que colabora com a edição desde o primeiro número do jornal, produzido em 2001, os textos mantêm as características da linguagem verbal usada pela população em situação de rua.

“A maneira uma vez que eles falam uma notícia é mantida no texto, que é coletivo. Trabalhamos com eles os elementos básicos: o quê, quando, onde e por quê. Elementos uma vez que perspicuidade e moral não ficam de fora. Eles sabem que, se falam mal de alguém, precisam ouvir essa pessoa e têm que ter fatos”, explica Duarte.

“O Boca de Rua é uma experiência transformadora, em todos os sentidos. Inclusive para quem lê. O jornal dá oportunidade ao leitor de ter uma visão sem filtro. Porquê disse um integrante, é uma pequena revolução”, diz a editora.

Manadeira

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