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A máquina da morte deve ser paragem no Chile, diz jornalista sobre novidade Constituição

A polícia, os carabineros, foi responsável por atos de violência contra os manifestantes. Porquê ficou a imagem da instituição para a população?

A polícia é um dos pontos centrais do sistema, ela funciona porquê uma mola, é a guarda pretoriana, que resiste com unhas e dentes a mudanças.

Sobre a violência policial, desde 18 de outubro, o balanço foi unicamente se agravando. São milhares de feridos, inúmeras denúncias de tortura e abusos sexuais, além de manifestantes com perda de visão. Há pessoas que perderam a visão de ambos os olhos [após serem atingidas por projéteis]. E que foi documentada graças ao trabalho de repórteres e documentaristas que produziram as provas de quem são os assassinos, os torturadores. Agora, luta-se contra a impunidade, porque há unicamente um policial réprobo por todos os atos de violência.

Mas a imagem dos carabineros já vinha manchada. A polícia protagonizou o maior velhacaria recente dos fundos estatais, um ramal de depravação de mais de 28 milhões de pesos chilenos. Ou seja, um dos grupos criminosos mais notáveis do país são os próprios carabineros, que deveriam nos proteger dos criminosos. Isso é um paradoxo.

[Em 2017] Houve uma operação da lucidez policial, chamada “Furacão”, que injetou provas falsas de participação em atentados terroristas nos celulares de importantes lideranças indígenas mapuche. A operação levou à prisão de oito indígenas mapuche e foi conduzida pelo diretor-chefe dos carabineros. Mas a farsa foi revelada.

A polícia quase chegou a ocasionar um incidente diplomático com a Argentina, pois inventaram que havia um movimento subversivo de indígenas mapuche do lado prateado da fronteira.

Depois, ainda ocorreu o assassínio de Camilo Catrillanca, um jovem mapuche assassinado a tiros pela polícia na comunidade Temucuicui, sem resistência. A polícia ainda prendeu outro jovem, que acompanhava Camilo na viagem, e o torturou. A invenção de que a polícia tentou forjar uma situação de confronto para justificar a morte de Camilo levou à saída do diretor-geral dos carabineros.

Ou seja, em murado de quatro anos, unicamente por cometerem crimes, foram destituídos mais de 40 generais dos carabineros. O sistema de lucidez ficou totalmente desmontado. E logo vêm os protestos e os carabineros respondem com repressão violenta, violando protocolos e leis. E o governo, sem ninguém entender o motivo, os protege.

O sistema policial chileno pode mudar com a novidade Constituição? Existe essa demanda?

Com as manifestações, o Tá Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas, a Percentagem Interamericana de Direitos Humanos, a Anistia Internacional e a Human Rights Watch – quatro dos principais órgãos de direitos humanos – fizeram relatórios que apontaram os carabineros porquê responsáveis pela repressão persistente, grave e sistemática de direitos humanos. E eles pedem uma reforma radical da polícia.

É nesse ponto que estamos, a reforma da polícia está pênsil. Mas isso deve ser feito agora, antes mesmo da novidade Constituição, que será concluída em ainda dois anos. Isso é urgente. Precisamos de uma polícia que trabalhe para proteger a população dos criminosos de verdade. E que haja controle público sem violação de direitos humanos. Há uma pressão muito grande para isso, vamos ver o que acontecerá nos próximos meses.

Quando se nota porquê a polícia militarizada atua no Chile, no Brasil, em El Salvador, na Colômbia, é uma tendência na América Latina. E, se você olhar para os Estados Unidos, é a mesma coisa, nos assassinatos de afro-americanos pela polícia, porquê o de George Floyd. Aqueles terríveis oito minutos…

Eu diria que às vezes a democracia não fala muito sobre o recta à vida. O recta à vida é questionado em muitos lugares, porquê nos Estados Unidos. O recta à vida implica o recta de sonhar, de ter o recta de viver em condições humanas. E, infelizmente, nosso país está seriamente quebrado por uma força policial que se tornou a guarda pretoriana de um sistema que deseja nos prender ou nos intimidar. É uma velha estratégia que nós já conhecemos, eu a conheci muito durante a ditadura.

Há apoiadores da ditadura entre pessoas contrárias à novidade Constituição, a Constituição atual é do período de Pinochet. Porquê esses grupos se comportam? Há um revisionismo, porquê ocorre atualmente no Brasil, negando-se que a ditadura violou direitos humanos, defendendo-se torturadores?

No Chile é dissemelhante. Em primeiro lugar, há a fé de que a ditadura foi corrupta, de que as empresas públicas foram privatizadas e distribuídas para uma escol. O ditador roubou bilhões de dólares para o próprio bolso, para sua família, que vivem porquê reis atualmente. Temos consciência porque nos dedicamos muito a documentar esse roubo. De que eles se mantinham no poder com sangue e lume porque queriam continuar roubando.

Tenho insistido que a memória é uma questão social. Acredito que no Brasil, com todo o reverência, o tecido social falhou em reproduzir essa memória. Vocês estão vendo o que significa Bolsonaro no poder, porquê ele homenageia torturadores. É uma anormalidade. Por isso, digo que o que está em jogo é o recta à vida. É por isso que digo que temos tanto a fazer, o jornalismo tem que desempenhar um papel que nunca teve antes. Somos quase o cordão umbilical para a sociedade se informar, para depois lutar por seus direitos e reivindicá-los.

Qual foi o efeito da pandemia da Covid-19 em todo esse processo em seguida as manifestações no Chile? Porquê o governo se posicionou?

Houve má gestão cá, sim. Houve tentativas de manipular números. Os setores mais pobres foram os mais afetados, era impossível permanecer em lar porque era preciso ir buscar o sustento. E há milhões de jovens e crianças que, sem internet e sem um computador, ficaram de fora de todo o conhecimento.

Estamos em sétimo no número de mortes por milhão de habitantes. A América Latina tem um problema grave de má gestão, é preciso reconhecer, que tem a ver com a pobreza que a gente arrasta em nossa história. Com a depravação, não nos permitiu melhorar, com políticas mais violentas, com a fragilidade do sistema de saúde.

Outro vista que foi revelado com a pandemia, e que também existe em quase toda a América Latina, é que a maioria das famílias mais pobres é chefiada por uma mulher. Precisamos de políticas públicas para que as mulheres chilenas mais pobres possam fabricar seus filhos.

É curioso que entre os locais com maior votação, maior participação, estavam comunidades mais pobres, apesar da pandemia. Isso mostra quais pessoas disseram “basta”. E a participação das mulheres foi enorme. A saída da crise, o que estamos construindo, tem rosto e voz de mulheres. Muito, isso não tem volta.

A propósito, a paridade da Reunião Constituinte chilena é um feito histórico. Porquê se conseguiu isso?

Foi conseguido através do movimento feminista, apesar do voto contrário da direita. Mas isso mostra a força desse movimento, que vai muito além dos partidos políticos. Eu acho que não há porquê voltar detrás.

Um exemplo disso são as Lastesis [coletivo feminista chileno que criou uma canção de denúncia à violência sexual que se difundiu pelo mundo]. Elas cantam “o violador é você”, não é culpa minha, nem de onde eu estava, nem do que vestia. Acredito que essa música já foi repetida e cantada milhões de vezes por todo o país. Isso provou mudanças muito mais eficazes do que milhares de discursos.

E quais são as principais demandas das mulheres para essa novidade Constituição?

A origem da Constituição de Pinochet é que tudo é liberado no espaço privado, que o Estado tem que se intrometer o mínimo. Nós estamos discutindo de que forma os direitos sociais precisam ser garantidos pelo Estado.

Mulheres não podem lucrar menos, ter aposentadorias menores, não podem ser castigadas no mercado de trabalho por terem útero. Não é verosímil que continue havendo tantos assassinatos de mulheres por seus parceiros. É preciso ter políticas públicas que previnam isso.

E quanto às demandas indígenas? A bandeira mapuche se tornou um símbolo nas manifestações, é difícil encontrar uma retrato dos protestos que não tenha a bandeira colorida dos mapuche.

Embora o povo não tenha permitido nenhuma bandeira de partido ou sindicato, a dos mapuche foi permitida, assim porquê a feminista. Houve um enorme progresso no reconhecimento de que temos uma dívida não só com o povo mapuche, mas também com todos os povos originários. E essa é uma dívida que a esquerda também carrega, pois nunca se preocupou em reivindicar os direitos dos povos indígenas.

A principal reivindicação é prometer os territórios indígenas. E também se discute que eles tenham assentos reservados na Reunião Constituinte.

Não há um único povo mapuche, um único povo aimara, um único povo diaguita. Em outras palavras, não temos unicamente uma cultura, e isso deve permear nossa novidade Constituição.

A experiência chilena pode se tornar um exemplo para outros países na América Latina? Atualmente, parece-me oposta ao que tem ocorrido no Brasil…

Sim! A relação entre o Chile e o Brasil é estreita, não há nenhum outro país da América Latina de que os chilenos se sintam mais próximos. Se Bolsonaro reproduz Trump, se em El Salvador se reproduz Trump, o deve ser evitado é que esse efeito de imitação continue crescendo. A questão é: de que maneira o seu país vai concluir com a violência e a discriminação?

Quais são as próximas etapas desse processo chileno? Quais os principais desafios para a democracia do país?

No dia 11 de janeiro, termina o prazo para registro de candidaturas de membros da Reunião Constituinte. O mês de abril marca o início das votações. É importante lembrar que, aliás, hoje vivemos uma crise econômica brutal e devemos atender às necessidades urgentes das pessoas. Portanto, é impossível prever o que irá ocorrer mais adiante. Seria irresponsável.

Não sabemos porquê vamos transpor da pandemia nem quando irá ter vacina. Temos que conviver com isso e com uma crise econômica, a mais grave que já tivemos. E isso me preocupa porque a crise econômica e a repressão são a morte. E é essa máquina da morte que deve ser paragem.

Não sabemos porquê e quando vamos transpor disso. Isso me dá uma mistura de esperança e um pouco de temor, pela frustração que pode ocasionar. Mas ninguém vai tirar de mim o delícia de viver os melhores anos dos últimos 30. Temos que transfixar as asas, ainda que alguns as tenham um pouco machucadas, temos de recuperá-las, desgrudá-las, deixá-las voar.

*Publicado originalmente em Sucursal Pública



Manadeira

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