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A inflação do espaguete à carbonara – Cozinha Bruta

Um montão se falou sobre os preços do arroz e do óleo de soja, mas… e a inflação da carbonara?

O espaguete à carbonara, na última dez, se tornou um clichê da classe média gourmetizada brasileira. Todo playboy que vê “MasterChef” comprava uma faca da grife, uma coifa top para o fogão e se metia a preparar a tal da carbonara.

Ela nasceu uma vez que comida de pobre, na Itália: leva macarrão, ovos, uma quantidade miserável de mesocarpo de porco e queijo ralado. Uma vez que é um inferno concertar a textura dos ovos –ora eles passam do ponto, ora ficam crus–, a receita se tornou um duelo para os cozinheiros de término de semana.

Vejamos quanto saía a lista de compras, ontem (25), para uma carbonara autêntica.

A melhor volume seca italiana é a de Gragnano, perto de Nápoles. Dentre os produtores locais, a marca Afeltra tem reputação principalmente positiva. Na importadora Ravin, um pacote de 500 gramas de espaguete Afeltra saía por R$ 32.

Ovos são baratos, né? Melhor comprar orgânicos, pois o minimalismo da carbonara exige ingredientes de qualidade. Na Vivenda Santa Luzia, supermercado predilecto dos foodies, meia dúzia de ovos caipiras orgânicos da marca Label Rouge custava, ontem, R$ 12,70.

Para fazer uma vez que os romanos, a carbonara deve levar guanciale (papada suína curada com sal e especiarias) e pecorino romano (queijo duro de leite de ovelha).

A Del Veneto, charcutaria de São José dos Campos, vendia a peça de 600 gramas de guanciale a R$ 64,90. No Carrefour, supermercado mais mainstream do mundo, o preço de uma fatia de 150 gramas do pecorino Pinna, importado da Itália, era R$ 45,49.

Na ponta do lápis: uma macarronada de R$ 155,09.

Ain, mas e aqueles que só comem farinha? E os pobres que nem sabem o que é Itália?

Calma, tigrada! Daqui a pouco eu volto a vestir a toga de cruzado da justiça social. Hoje vou ortografar sobre gastronomia, tópico fútil por natureza –mas foi para isso que o jornal me contratou.

A inflação dos vitualhas empurra a classe média de volta para os anos 1980, quando unicamente os ricos desfrutavam de queijos e vinhos importados, entre outros acepipes.

A explosão da cotação do dólar foi finalmente repassada por inteiro na gôndola do mercado. Artigos compráveis no ano pretérito viraram sonho de consumo. Para arrematar a lambança, os importados puxaram para cima o preço dos similares nacionais.

Bacon vendido a R$ 106 o quilo no site do Pão de Açúcar

Digamos que a gente dê um downgrade naquela carbonara: o quilo do bacon Sadia, no Pão de Açúcar, custava ontem R$ 106. Qualquer parmesão ordinário está saindo por 80 contos o quilo.

Os restaurantes, sufocados pela pandemia, ainda entubam o repasse para não perder o que sobrou da clientela. A mídia especializada em gastronomia –não a chamemos de jornalismo– ignora o monstro, pois subsiste de mesuras das fontes.

Só que a conta não fecha, e a bolha fatalmente vai estourar.

Do jeito que a coisa vai, a classe média terá que almoçar e jantar arroz puro… não, espera!

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